segunda-feira, 17 de junho de 2013

Andarilha.



          Ainda é muito viva em minha mente a lembrança daquela mulher, ela usava um vestido comprido e “verde”... Uma mulher de pele morena que aparentava meia idade e não tinha nenhuma formosura, tinha sim um ar de louca, solitária, humilde, e esquecida, cabelos escuros contendo alguns fios esbranquiçados. Era difícil até imaginar o que podia se passar naquela mente, era perceptível uma pele suada um olhar sem direção e pés descalços que andavam sem rumo e vacilantes...  Ela era assistida por mim e pelo sol que faria até o mais lúcido fritar o juízo, olhei a mulher e ela segurava uma manga na mão esquerda e batia na cabeça com a direita se despenteando ainda mais, aquela manga que ela carregava talvez fosse à única refeição para aquele dia, o único pão para um corpo cansado e doente, a pancada que ela mesma dava na cabeça era provavelmente à tentativa desesperada de buscar algum juízo ou esperança. Era impossível não perceber aquela senhora. 
            Em fração de segundo eu já olhava a mulher pelo retrovisor do carro, eu quis parar e deixar minhas havaianas com ela... Não parei, não deixei nada, foi muito rápido... Na curva seguinte ela sumiu, me lembro dos pés descalços e do quanto me identifiquei com ela. Ela precisava primeiro de um juízo e depois de uma ajuda, eu não podia dar o juízo que ela precisava, eu não podia dar a ela a esperança que ela perdeu, de nada adiantaria deixar com ela as minhas havaianas, não era de havaianas que ela precisava. Vejo que muitos caminham iguais àquela mulher, loucos, sem rumo, com fome da palavra e tendo pouco pra comer, em um mundo que perdeu a direção, todos caminham solitários, sem esperança. A vida não tem um sentido e qualquer caminho em que andemos parece levar a lugar nenhum, eu sei o que é isso, caminham descalços, desprotegidos contra o sol, e o chão quente sempre lhes causa feridas nos pés e sujeiras difíceis de remover, também batem na cabeça tentando buscar memória e esperança, perguntando: Onde foi que eu errei? Isso está mesmo acontecendo? Como acertar?  Ao mesmo tempo vejo que alguém se compadece de nos, quer nos dar assistência, mas precisamos renovar o juízo, recobrar as forças, resgatar as esperanças.
         Existe perdão a nos ser dado, mas não sabemos como usar ou por muitas vezes não queremos usar, nos achamos pouco merecedores e longe demais para que Deus possa nos ver e nos oferecer ajuda, enquanto ele está nos olhando do Céu e esperando apenas um lampejo de lucidez em nossa mente para nos dar a salvação. Enquanto caminharmos insensíveis à voz de Deus, Ele não poderá fazer por nós o que ele tanto quer, pois de nada adiantaria falar a quem não quer ouvir. Lembro-me da mulher de sofrimentos, pouca formosura, louca e solitária e me pergunto: Isaac onde está a esperança? A mulher vestia-se de esperança a cor do vestido dela era verde, essa cor identifica esperança, não temos nada e nada somos, embora loucos e solitários Deus hoje nos oferece novas vestes, através do perdão ele nos oferece vestes de esperança.

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