Ainda
é muito viva em minha mente a lembrança daquela mulher, ela usava um vestido
comprido e “verde”... Uma mulher de pele morena que aparentava meia idade e não
tinha nenhuma formosura, tinha sim um ar de louca, solitária, humilde, e
esquecida, cabelos escuros contendo alguns fios esbranquiçados. Era difícil até
imaginar o que podia se passar naquela mente, era perceptível uma pele suada um
olhar sem direção e pés descalços que andavam sem rumo e vacilantes... Ela era assistida por mim e pelo sol que faria
até o mais lúcido fritar o juízo, olhei a mulher e ela segurava uma manga na
mão esquerda e batia na cabeça com a direita se despenteando ainda mais, aquela
manga que ela carregava talvez fosse à única refeição para aquele dia, o único
pão para um corpo cansado e doente, a pancada que ela mesma dava na cabeça era
provavelmente à tentativa desesperada de buscar algum juízo ou esperança. Era
impossível não perceber aquela senhora.
Em fração de segundo eu já olhava a mulher
pelo retrovisor do carro, eu quis parar e deixar minhas havaianas com ela... Não
parei, não deixei nada, foi muito rápido... Na curva seguinte ela sumiu, me
lembro dos pés descalços e do quanto me identifiquei com ela. Ela precisava
primeiro de um juízo e depois de uma ajuda, eu não podia dar o juízo que ela
precisava, eu não podia dar a ela a esperança que ela perdeu, de nada
adiantaria deixar com ela as minhas havaianas, não era de havaianas que ela
precisava. Vejo que muitos caminham
iguais àquela mulher, loucos, sem rumo, com fome da palavra e tendo pouco pra
comer, em um mundo que perdeu a direção, todos caminham solitários, sem
esperança. A vida não tem um sentido e qualquer caminho em que andemos parece
levar a lugar nenhum, eu sei o que é isso, caminham descalços, desprotegidos
contra o sol, e o chão quente sempre lhes causa feridas nos pés e sujeiras difíceis
de remover, também batem na cabeça tentando buscar memória e esperança,
perguntando: Onde foi que eu errei? Isso está mesmo acontecendo? Como acertar? Ao mesmo tempo vejo que alguém se compadece de
nos, quer nos dar assistência, mas precisamos renovar o juízo, recobrar as
forças, resgatar as esperanças.
Existe perdão a nos ser dado, mas não sabemos
como usar ou por muitas vezes não queremos usar, nos achamos pouco merecedores
e longe demais para que Deus possa nos ver e nos oferecer ajuda, enquanto ele
está nos olhando do Céu e esperando apenas um lampejo de lucidez em nossa mente
para nos dar a salvação. Enquanto caminharmos insensíveis à voz de Deus, Ele
não poderá fazer por nós o que ele tanto quer, pois de nada adiantaria falar a
quem não quer ouvir. Lembro-me da mulher de sofrimentos, pouca formosura, louca
e solitária e me pergunto: Isaac onde está a esperança? A mulher vestia-se de
esperança a cor do vestido dela era verde, essa cor identifica esperança, não
temos nada e nada somos, embora loucos e solitários Deus hoje nos oferece novas
vestes, através do perdão ele nos oferece vestes de esperança.
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